Oficina CEER
 09-09-2011
A DITADURA DO TEMPO NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA

Como organiza o seu tempo para conseguir atingir os objectivos definidos diariamente? Esta é, sem dúvida, uma das maiores preocupações da era actual. Por mais que a industrialização tenha contribuído notoriamente para o desenvolvimento das sociedades contemporâneas, também veio impor um ritmo de vida acelerado, com repercussões nefastas para o organismo, a concentração e o processo de envelhecimento. A forma como gerimos o tempo hoje é uma invenção da industrialização e um resultado do sistema capitalista. Nesta sociedade, a gestão do tempo é completamente intrusiva e caótica, afirma Emília Araújo, professora e directora do Departamento de Sociologia da UMinho, que tem várias investigações sobre a cultura do tempo.

A constante necessidade de dar resposta a várias exigências em simultâneo começa desde muito cedo e verifica-se ao longo de toda a trajectória de vida: Hoje, por exemplo, exigimos, consciente e inconscientemente, das crianças atitudes e comportamentos para os quais não estão mental e fisicamente preparadas, reforça. Algumas pesquisas indicam também que o facto de ser mulher e/ou ter filhos influi na aceleração do processo de envelhecimento.

O trabalho acaba por ser central na vida das pessoas. Mesmo não estando no local de emprego, as solicitações continuam presentes, através do portátil ou de outros suportes. Afinal, o trabalho é a grande fonte de rendimento desta sociedade, criada por nós, frisa Emília Araújo. Os profissionais de alto nível não fogem à regra, pois também estão sujeitos a uma elevada pressão. Esta performance acelerada foi criada dentro do sistema capitalista actual, que obriga os trabalhadores a responder antes do problema ser formulado. Escapar a uma rotina tão cheia significa, para alguns, uma alternativa de vida, a de abandonar o trabalho e os centros urbanos, por vezes ganhando menos e tendo uma vida mais precária, mas menos acelerada: Chama-se o movimento do regresso e fazem isso para se sentirem melhor ao final do dia ou da semana. A socióloga não descarta a possibilidade de existir uma relação inversa entre a felicidade e as respostas agora exigidas.

As escolas, as organizações de trabalho e os governos é que submetem as pessoas a uma pressão enorme em termos de trabalho. São entidades que têm imenso controle sobre o nosso tempo, afirma Emília Rodrigues. A solução está na implementação de novas políticas, como a reestruturação dos horários escolares, demasiados estandardizados e incompatíveis com muitos pais; a socialização dos governantes quanto à abertura dos serviços, entre os quais supermercados, do serviço público e das entidades culturais, que não condizem com a disponibilidade dos cidadãos. Tais medidas são necessárias porque a maioria das pessoas trabalha em regimes desencontrados. Isso pressupõe, principalmente na esfera familiar, o surgimento de novos estilos de estar em conjunto.

Aproveita hoje que amanhã podes não estar cá
A famosa expressão Aproveita que amanhã podes morrer transformou-se no lema de muitos. Esta realidade convida as pessoas a viverem no presente, o que tem implicações directas no planeamento do futuro, avança Emília Araújo, citando o sociólogo francês Michel Maffesoli, que fala de uma valorização do carpe diem por parte das sociedades pós-modernas. Alguns estudos explicam que este fascínio pelo imediatismo deve-se ao medo da morte: A sociedade moderna, destruidora de determinados mitos, dá imensa importância ao presente e tem medo da morte, o que mostra igualmente a perda de valor das instituições religiosas.

De facto, uma das principais funções da religião é fazer acreditar que se pode ser recompensado extra-terrenamente, acrescenta. A poupança é um dos factores afectados por esta lógica presentista. A presente crise económica prova que é realmente importante pensar mais além. Aqueles que tiveram mais perspectivas sobre o futuro e outra postura relativamente ao aforro vão no futuro estar mais à frente, diz.

Quem organiza melhor o seu tempo?
Esta linha de investigação também permite atentar nas desigualdades de género ainda existentes no país e no mundo. O estudo O tempo e a tecnologia: uma perspectiva sobre o género no espaço português, desenvolvido por Emília Araújo e investigadores da Universidade da Beira Interior, concluiu que as mulheres de todas as classes sociais continuam a dedicar mais tempo às tarefas domésticas, que são frequentemente rotineiras e não requerem tanta imaginação. A investigação teve como objectivo perceber de que forma os casais com filhos organizam os tempos doméstico e lúdico.

Afinal quem organiza melhor o seu tempo? De acordo com o sociólogo Edward Hall, as mulheres tendem a ser mais polícronas, isto é, têm maior capacidade para realizar, em simultâneo, actividades diferentes, enquanto os homens são monócronos – treinados para fazer uma tarefa de forma linear. Emília Araújo explica este fenómeno de forma muito clara: A pré-disposição para ser organizado treina-se. Esta forma de ser surge de processos de socialização distintos que condicionam diferentemente mulheres e homens. As meninas são treinadas, desde muito cedo, a actuar perante várias exigências. Os rapazes são sobretudo deixados a uma única tarefa num só tempo, explica. A forma como as mães, os pais ou os educadores lidam com as crianças é fundamental nesta aprendizagem, acrescenta.

O binómio polícrono/monócrono ainda se pode aplicar a determinadas culturas. Alguns estudos indicam que as culturas nórdicas são monócronas, ou seja, mais disciplinadas, organizadas e predispostas para o futuro, sendo que os países europeus do centro são polícronos. Os portugueses, espanhóis e italianos misturam com mais frequência o tempo livre e o trabalho. Seguindo a lógica actual, acabamos por não ser tão produtivos, avança a investigadora.

Fonte: www.uminho.pt