Oficina CEER
 14-09-2011
SEPARAR PARTÍCULAS TAMBÉM É RECICLAGEM

Se há liberdade que a ciência alimenta, a descoberta de aplicações longínquas e inacreditáveis é, certamente, uma delas; mas nem sempre as boas ideias, cozinhadas pelos melhores cientistas, são sinónimo de projectos bem sucedidos.

Optimizar a tecnologia com um rigoroso plano de negócios e tornar uma ideia credível aos olhos dos investidores são meio caminho para não deixar morrer um projecto no momento certo. Foi o que aconteceu com Pedro Ribas Araújo e Romualdo Salcedo, uma dupla de investigadores que se cruzou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e que, em três anos, conseguiu colocar a empresa que fundaram, a Advanced Cyclone Systems (ACS), na rota internacional da tecnologia especializada na separação de partículas do ar.

Explicar aos investidores e potenciais clientes o que fazem nem sempre é fácil, mas é possível simplificar desta forma: através de ciclones aplicados em tudo o que são fontes de emissão de partículas caldeiras ou fornos, por exemplo o sistema que desenvolveram apanha essas partículas e faz a sua separação do ar, reduzindo a quantidade de poluentes. Uma forma industrial de reciclagem com aplicações na indústria alimentar (produção de açúcar ou chocolate são exemplos onde já foi testado), farmacêutica ou química.

A tecnologia já era conhecida no mercado, mas era preciso optimizá-la e tornar a sua aplicação sustentável para vários segmentos de mercado. Foi possível graças ao CoHitec, o programa de apoio da Cotec Portugal Associação Empresarial para a Inovação orientado para projectos embrionários de base tecnológica. A dupla venceu a segunda edição do CoHitec e, a partir de 2008, não tem feito outra coisa senão colocar a tecnologia lá fora, ao ponto de 70 por cento da facturação anual (cerca de 800 mil euros) ser hoje conseguida à base de exportação.

A ACS tem três anos de actividade, mas o seu embrião quase duas décadas. Romualdo Salcedo estudava este sistema de ciclones desde 1993 e conseguiu desenvolver, através de métodos computacionais, um sistema de recirculação utilizando pequenos ciclones que na ACS veio a chamar-se ReCyclone. Salcedo fê-lo no âmbito académico, na FEUP, onde viria em 2000 a ser contactado por uma pequena empresa de engenharia que fez uma parceria com a faculdade para explorar comercialmente estes sistemas, lembra este catedrático de Engenharia Química.

Ainda instalaram alguns protótipos no mercado, mas à empresa faltava força comercial para ter um produto apetecível que conseguisse entrar no mercado internacional. O relógio corria muito lentamente e os produtos que eles próprios fabricavam eram de certo modo concorrentes destes ciclones avançados, acentua.

Em 2007, termina a parceria e, nesse mesmo ano, Salcedo é abordado por Pedro Araújo para fazer um estudo para o MBA que viria a concluir na Universidade Nova de Lisboa. Pedro Araújo conhecia Romualdo Salcedo da FEUP, onde tinha estudado Engenharia e Gestão Industrial e, a partir do contacto com o professor do Porto, fez o enquadramento teórico para a aplicação do produto.

Incubação tecnológica
A segunda parte do projecto, explica Pedro Araújo, actual presidente executivo da ACS, pressupunha a criação virtual de uma empresa dotada de um capital de crescimento e de técnica para provar algo que levasse a tecnologia para o mercado. É aqui que entra o CoHitec: o programa serviu como uma espécie de incubadora e, com isso, ganharam credibilidade e puderam apresentar a ideia a um painel de investidores. Isto foi ainda em 2008, a pior altura possível, com o culminar da crise financeira, para uma empresa capitalizar investimento. Mesmo assim, captaram a atenção de três investidores e, entre as propostas, foram os próprios candidatos que escolheram a que melhor se encaixava nos objectivos de futuro da empresa. Optaram pela Espírito Santo Ventures, que sustentou parte do arranque com um investimento por três anos (que se mantém actualmente) de 1,5 milhões de euros.

Hoje, trabalham na ACS mais oito pessoas, e, para este ano, esperam chegar já a um volume de facturação de dois milhões de euros. A ACS está um pouco por todo o mundo o seu rácio de exportação centra-se sobretudo na Europa e no Brasil. A geografia é para manter, com um pé no espaço europeu e outro nos mercados emergentes, mas a pensar já no próximo passo: a internacionalização no sentido de ter filiais noutros mercados.

Fonte: www.noticias.up.pt