Oficina CEER
 19-09-2011
22% DE CURSOS CORREM RISCO DE FECHAR POR FALTA DE ALUNOS

22% dos cursos em risco de ficarem sem financiamento.

Menos de dez alunos. Licenciaturas podem não arrancar por falta de procura. Ministério espera pelos dados finais para racionalizar rede. Politécnicos apostam nos concursos locais.

Um em cada cinco cursos tem menos de dez alunos colocados na 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior. E correm o risco de não serem financiados por falta de inscrições. O ministro da Educação diz que ainda faltam etapas, mas adverte que estes resultados, bem como de anos anteriores, serão um elemento importante a ter em conta na reflexão sobre a racionalização da rede de instituições do ensino superior público. E os responsáveis dos politécnicos, com menos vagas preenchidas, acreditam que podem compensar com os candidatos nos concursos locais.

São 253 (22%) os cursos em 1152 que não conseguiram uma dezena de alunos no contigente nacional de acesso, além dos 413 (35,9 %) que não chegaram às duas dezenas. Uma das exigências para que continuem a ser financiados pelo Estado é que tenham um mínimo de dez alunos ou uma média de 20 anuais nos últimos três anos.

Falta contabilizar as colocações das 2.ª e 3.ª fases do concurso nacional de acesso ao ensino superior, berm como os inscritos nos concursos locais e que representam uma fonte substancial de recrutamento dos institutos politécnicos, mas os intervenientes nesta matéria já fazem contas. Os resultados do concurso nacional de acesso não estão completos. Terse á uma imagem mais completa após a 2.ª fase de colocações. Os resultados deste concurso, bem como os dos anos anteriores, serão um elemento importante a ter em conta na reflexão sobre a racionalização da rede de instituições de ensino superior públicas, respondeu ao DN o ministro da Educação, Nuno Crato.

Entre as licenciaturas com pouca escolha existem factores comuns: o tipo de estabelecimento de ensino (politécnico); a área de estudo (agricultura, engenharias, educação e serviços) e a localização (interior do País).

João Sobrinho Teixeira, que preside ao Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, lamenta que os portugueses tenham uma imagem social menos positiva destas instituições e defende a existência de rankings no ensino superior público para se desfazerem as dúvidas.

Uma das razões é, ainda, a pouca visibilidade dos institutos politécnicos, pese embora toda a luta que é feita e os números provenientes do Instituto do Emprego e Formação Profissional, que apontam para uma maior empregabilidade dos alunos do politécnico. Ainda há um peso social que valoriza a universidade. Gostaria de ver comparados os dados relativos à formação da equipa docente, à metodologia e acompanhamento dos alunos e à taxa de empregabilidade para que não baseassem as escolhas em percepções subjectivas. Outra causa que aponta tem que ver com a diminuição de candidatos. A razão principal é a falta de uma política consistente no acesso ao ensino superior público, que está dependente de uma prova de acesso e que, este ano, foi mais difícil. Tivemos quase menos sete mil candidatos, o que não responde a uma diminuição dos alunos no ensino secundário.

João Sobrinho Teixeira preside ao Instituto Politécnico de Bragança, com apenas 35% das vagas preenchidas. Sublinha que o ano passado entraram 2500 alunos e 1300 foram através dos concursos locais. O curso de Engenharia Florestal não teve alunos na 1.ª fase [o que também aconteceu este ano] e acabámos por não ter vagas para todos os pedidos. Mas admite que terão de perceber porque é que não têm candidatos no concurso.

Três mil colocados saturam Enfermagem e Direito
Emprego Licenciaturas estão entre as que mais alunos colocam. Bastonários alertam que desemprego vai aumentar.

Mais de três mil jovens iniciam, entre 2011 e 2012, cursos de Direito e Enfermagem. Cursos que não tiveram reduções de vagas apesar da saturação do mercado reconhecida pelos respectivos bastonários. Só em Enfermagem vão iniciar formação quase dois mil alunos (1920). Mas a bastonária da Ordem, Maria Augusta Sousa, admite que pela primeira vez tinha feito sentido reduzir o número de vagas. Até agora, havia desemprego, mas os serviços não tinham os enfermeiros necessários, alerta.

Os cursos de Enfermagem pululam um pouco por todo o País. Só os três das Escolas Superiores de Enfermagem preencheram a totalidade das suas 890 vagas abertas este ano. Mas, apesar do desemprego, com os recém-formados a demorar meses ou anos a obter emprego, a bastonária dos Enfermeiros é da opinião que há um problema de dotação dos serviços. Neste momento não estão cobertas as necessidades. Se estivessem não havia tanto desemprego.

Além do reforço de alguns serviços, há falta de profissionais em novas áreas, como os cuidados domiciliários. Um planeamento essencial que também devia chegar às vagas nas universidades. Talvez os colocados hoje venham a ter mais desemprego. Este é o primeiro ano em que devia ter sido pensada uma redução das vagas.

Também em Direito, o novo ano lectivo traz mais de mil caloiros aos cinco cursos públicos. Para Marinho e Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados, trata-se da continuação de um logro e uma exploração das ilusões de uma geração de jovens. Os cursos de Direito são um excelente negócio para as universidades privadas e públicas: as primeiras garantem o pagamento de propinas, as segundas para além das propinas têm o financiamento indexado ao número de alunos, independentemente de serem ou não necessários à sociedades. Das 1210 vagas criadas, 330 foram na Universidade de Coimbra e 498 em Lisboa (48 em regime pós-laboral).

Para o bastonário, desde há muito que não há mercado de trabalho para tantos licenciados. Pelos vistos não era só o anterior governo que gostava de apresentar estatísticas sobre licenciados. Este também gosta, porque não há coragem para enfrentar a corporação das universidades.

Menos candidatos por culpa da crise
Os estudantes do ensino superior apontam a crise económica que se reflecte na maioria das famílias e a falta de um sistema eficaz de apoios sociais como causas da diminuição dos candidatos ao ensino superior.

O presidente da Associação Académica de Coimbra, Eduardo Melo, destaca os enormes custos da frequência do ensino superior em Portugal, principalmente com as despesas associadas, visto que a maior parte dos estudantes acaba por ser deslocada da família.

Não tendo nós acesso a um sistema que garanta as condições de acesso independentemente da condição socioeconómica, obviamente que isto começa a reflectirse, como aconteceu já no ano passado, quando o número de alunos bolseiros diminuiu.

Para Tiago Gonçalves, da Associação Académica da Universidade de Lisboa, além da situação económica do País, a questão prende-se também com a acção social, que tem vindo a diminuir porque o Estado tem vindo a desinvestir nessa área, bem como com o fenómeno preocupante do corte de 8,5% nas universidades.

Fonte: www.uminho.pt