Oficina CEER
 28-12-2011
UPORTO DESCREVE A DESCOBERTA DE UM NOVO CASO DE RADIAÇÃO ADAPTATIVA EM AVES

O estudo do investigador Martim Melo (CIBIO), publicado recentemente na revista Molecular Ecology de dezembro, descreve a descoberta de um novo caso de radiação adaptativa em aves: os “olho-brancos” (Zosterops) do Golfo da Guiné, em África.

Os “olho-brancos” constituem a família de passeriformes que colonizou mais ilhas a nível mundial. A facilidade em colonizar ilhas era apontada como uma das razões principais pela qual todas as espécies de olho-brancos presentes em ilhas eram descendentes de ancestrais continentais. O estudo veio demonstrar que as espécies do Golfo da Guiné são o fruto de radiações dentro do arquipélago.

Quase metade das cerca de 20 espécies de olho-brancos presentes em África e nas suas ilhas (incluindo Madagáscar) encontra-se no arquipélago do Golfo da Guiné, constituído por três ilhas oceânicas (Annobón, São Tomé, Príncipe), uma ilha continental (Bioko) e uma ilha ecológica (Monte Camarões). Através de dados moleculares, foi possível reconstruir a evolução deste grupo, verificando-se que as oito espécies do Golfo não resultavam de oito colonizações independentes, mas sim de apenas duas. Uma espécie deu origem às três espécies continentais e outra espécie deu origem às cinco espécies das ilhas oceânicas.

As cinco espécies oceânicas formaram-se em menos de um milhão de anos, o que representa uma das velocidades mais rápidas de especiação documentada em vertebrados.

Verificou-se ainda que as espécies mais “aberrantes” do grupo (aquelas com a morfologia muito distinta do padrão típico da família) não são descendentes de linhagens antigas mas, pelo contrário, foram as que se formaram mais recentemente, nos últimos 200.000 anos, mostrando que a diversificação morfológica também foi extraordinariamente rápida.

A reconstrução do processo de diversificação dos olho-brancos do Golfo da Guiné demostrou que o processo evolutivo acelera quando as espécies ou populações que estão a divergir vivem no mesmo local, podendo interagir entre si, e que a população que coloniza uma ilha já ocupada por outra espécie próxima é a que vai divergir mais na sua morfologia.

Assim, concluiu-se que o motor desta diversificação, também observado nos tentilhões das Galápagos, é a competição por recursos alimentares entre espécies próximas. JS/MM CIBIO

Fotografia: Alexandre Vaz

Fonte: noticias.up.pt