Oficina CEER
 16-01-2014
ESPECIALISTAS PREVEEM AUMENTO DE EXTREMOS CLIMÁTICOS

As ondas de calor e as vagas de frio, as secas e as cheias poderão ser cada vez mais frequentes em Portugal e na Europa, nas próximas décadas.

“As estações do ano estão cada vez mais extremadas e a perder a sua tipicidade. No caso específico de Portugal, registamos que, se por um lado parecem estar cada vez mais secas, por outro, tem aumentado a frequência de episódios de precipitação intensa”, declara o investigador do CITAB, João Santos.

A conclusão é suportada por várias publicações científicas do especialista em alterações climáticas e docente da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Um dos estudos em causa traça o futuro do clima entre 2041 e 2070, período em que são esperados mais extremos de precipitação e de temperatura em Portugal. “O verão vai passar a ter temperaturas muito mais elevadas. O aumento da temperatura máxima no interior do país será o ponto mais crítico,” sentencia João Santos.

Estudos e registos dos últimos 4 anos já comprovam tendência

Outro dos estudos em que João Santos participou, e que analisou todos os invernos em Portugal e na Europa desde 1870, levou a uma revelação sem precedentes: “Em quase 150 anos, verificámos níveis de precipitação inédita em território nacional no Inverno de 2009/2010, e de secura extrema no Inverno de 2011/2012”. Segundo João Santos, “trata-se de dois anos perfeitamente antagónicos e excecionais”, até pela proximidade temporal, num intervalo de quase 150 anos. “Estamos, portanto, a assistir a uma mudança cada vez mais evidente nos padrões meteorológicos”, esclarece.

Os efeitos destas alterações traduzem-se em inúmeros impactos socioeconómicos, atingindo a saúde humana e animal, a agricultura e a produção de energia, entre outros. “O próprio frio extremo pode ser uma manifestação das alterações climáticas”, frisa o investigador.

Índices como a precipitação, a temperatura, os padrões do vento no Atlântico Norte e na Europa, (nomeadamente a corrente de jato – ventos de oeste em altitude e que determinam o estado do tempo à superfície), são incluídos no estudo realizado com investigadores da Universidade de Reading e de Oxford (Reino Unido).

“O comportamento da corrente de jato está a tornar-se mais irregular e isso vai determinar que ocorram mais extremos de temperatura e de precipitação”, declara João Santos. 2013 é também apontado como modelo do extremismo que o estado do tempo está a atingir, com cada vez mais frequência: em alguns locais do país, o mês de março foi o mais chuvoso desde que há registos climatéricos (início do séc. XX), com quatro vezes mais precipitação do que os níveis normais para esse período.

No extremo oposto, o mês de Novembro foi o mais seco dos últimos 80 anos, com uma quase total ausência de chuva.

Um outro episódio raro foi registado no caso concreto da cidade de Vila Real, a 24 de dezembro, quando as estações meteorológicas registaram um valor próximo de 100 milímetros de precipitação (mais de metade da média do mês inteiro). Com cerca de 20 anos de experiência na área das alterações climáticas, o especialista garante que o futuro vai trazer mudanças.

“Ao fazermos uma média do estado do tempo de vários anos, calculando as médias de temperatura e precipitação, até poderemos, aparentemente, interpretar as condições meteorológicas como normais mas, na verdade, as médias podem mascarar uma maior frequência de extremos climáticos, tais como ondas de calor e vagas de frio, secas e cheias”, conclui João Santos.

Fonte: utad.pt