Oficina CEER
 24-01-2014
OBESIDADE JÁ ATINGE 30% DAS CRIANÇAS

Má nutrição gera envelhecimento precoce nas novas gerações.

As crianças que, no primeiro ano de vida, não tiveram um leque alargado de alimentos, mais tarde têm menos opções alimentares e, por isso, risco de deficiências nutricionais e de doenças precoces. Tal como usa muitas cores a pintar desenhos, a criança deve ter no prato o laranja da cenoura, o verde dos brócolos, o roxo da couve. A repetição da experimentação dos sabores isoladamente faz com que se habitue e tenha uma maior diversidade, prevenindo a obesidade, a osteoporose e a hipertensão arterial, confirma Henedina Antunes, da Escola de Ciências da Saúde da UMinho.

A professora auxiliar da Escola de Ciências da Saúde e investigadora do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) é também uma experiente pediatra, consultando atualmente 1393 crianças por obesidade no Hospital de Braga. Doutorada na área da nutrição pediátrica, com investigação consolidada em anemia por deficiência de ferro, participa em diversos fóruns e marca a sua opinião fundamentada acerca da nutrição em crianças e jovens.

A pediatra defende que uma diversificação deficiente na alimentação de uma criança pode causar graves problemas a médio prazo. "A nutrição errada conduz a problemas de obesidade, hipertensão e osteoporose”, sublinha, acreditando nos que defendem a tese do envelhecimento precoce. Alguns estudos internacionais já começaram inclusive a avaliar o impacto da nutrição deficiente ao nível de problemas oncológicos. Henedina Antunes teme que “as novas gerações sofram mesmo de um envelhecimento cardiovascular precoce, devido aos índices de obesidade atuais”, que já atingem 30%. A investigadora revela que “é assustador" lidar com estes valores no dia-a-dia e sente que as pessoas ainda não estão sensibilizadas. Nas suas consultas depara-se, muitas vezes, com contextos de famílias cada vez mais ocupadas e com pouco tempo para práticas saudáveis e hábitos alimentares mais corretos. Este facto enfatiza a importância de um ambiente friendly para as boas práticas alimentares nas famílias portuguesas.

A especialista declara, neste âmbito, que o envelhecimento precoce apresenta indicadores preocupantes numa investigação que tem desenvolvido: “22% das crianças obesas da minha consulta revelam índice PCR ultrassensível (um marcador do envelhecimento das artérias) positivo, ou seja, estão a envelhecer mais rapidamente”. Significa que no futuro poderemos estar a falar de adultos com 18 anos, com sistemas vasculares envelhecidos. A responsável cita uma frase muito repetida por investigadores - “teremos a primeira geração a morrer mais cedo que os pais devido à obesidade” - , que considera adaptada aos EUA, não se ajustando ainda ao nosso país. No entanto, “Portugal tem cá o FMI, que, como é sabido, sempre que entra num país diminui consideravelmente a esperança de vida das pessoas, com tudo isto junto, Portugal candidata-se...”, associa a especialista.

Experimentar alimentos aos seis meses de vida

A investigadora realizou um estudo prospetivo que seguiu crianças até à adolescência, para avaliar as repercussões da alimentação no primeiro ano de vida. As conclusões levam-na a aconselhar que, após os primeiros seis meses de aleitamento, as crianças contactem com os alimentos triturados, começando depois a conter alguns grumos a partir dos 10 meses de vida, aumentando a sua consistência. Nesta fase, "têm que começar a experimentar todos os sabores, de forma individualizada e separada”, contrariando as tendências de misturar múltiplos condimentos, dando-lhes “sopas e papas, tantas vezes, desagradáveis no sabor e no cheiro”, elucida a investigadora.

Na sua opinião, os diversos sabores devem ser introduzidos com persistência, pois “a criança habitua-se em geral a partir da 10ª à 12ª experiência com o sabor”. Por outro lado, “se aos 3 anos já se alimentar com 4 ou 5 vegetais, aos 10 anos já terá mais diversidade. E quantos mais vegetais e mais variada for a alimentação, desde tenra idade, menos probabilidades terá de sofrer de défices nutricionais”. Protelar a introdução de alimentos não evita reações alérgicas, apenas adia a experiência e a diversificação. "A partir dos seis meses de vida, nunca é cedo para experimentar os sabores, os diversos alimentos, adaptando a mastigação da criança”, afirma Henedina Antunes.

Quando confrontada com a problemática da osteoporose, a especialista começa por defender que“a sociedade continua a encarar o médico como aquele que vai curar a doença, mas na verdade este tem que ter, cada vez mais, um papel preventivo na defesa da saúde pública. Por isso, a investigadora do ICVS apela à consciência de cada um para se prevenir o problema da obesidade e da osteoporose, ainda na fase em que o casal começa o seu projeto de paternidade. Neste sentido, “os problemas da criança podem começar a ser prevenidos nas condições de saúde e peso certo da mãe quando engravida, ou mesmo no facto de o pai não fumar, pelo menos perto da mãe grávida”, adianta. Mais do que o senso comum, ao nível pediátrico continua a defender-se que o exercício físico e a alimentação diversificada são a chave para um crescimento equilibrado e para se chegar a uma idade adulta mais saudável.

Fonte: uminho.pt