Oficina CEER
 22-01-2010
Pediatra alerta para novas curvas de crescimento

António Guerra, pediatra e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), defende a adopção em Portugal das novas curvas de crescimento aconselhadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). A posição do professor da FMUP foi detalhadamente expressa num artigo publicado na Acta Pediátrica Portuguesa.

As curvas de crescimento avaliam a evolução somática do recém-nascido até à adolescência, registada num boletim dado aos pais logo após o parto. As novas curvas de referência da OMS “são uma ferramenta eficaz para uma identificação precoce do ganho ponderal excessivo e para o diagnóstico quer de desnutrição, quer de sobrepeso e obesidade”, afirma o pediatra.

“As novas curvas da OMS baseiam-se nos resultados de um estudo multicentrico cuidadosamente elaborado e realizado, entre 1997 e 2003, em diferentes continentes e que incluiu amostras selectivas de lactentes e crianças dos Estados Unidos, Noruega, Brasil, Gana, Índia e Oman, em dois estudos – um longitudinal e outro transversal – num total, respectivamente de 1743 lactentes e 6697 crianças.

O estudo referido analisou lactentes e crianças dos 0 aos 24 meses tendo em conta, como critérios de inclusão, a “motivação para o aleitamento materno durante os primeiros 4 a 6 meses”, o “plano de diversificação alimentar correcto”, o “acesso da criança a todos os cuidados de saúde” e a “ausência de tabagismo nas mães” – “Só assim as curvas podem traduzir o modo como se deve desejavelmente crescer e não o modo como uma determinada população cresce, independentemente do modo como é alimentada e cuidada”, afirma o professor do Serviço de Pediatria da FMUP.

A exclusividade do aleitamento materno na alimentação do recém-nascido e lactente “faz todo o sentido já que o leite natural é cientificamente reconhecido como o melhor alimento”. Refira-se que as crianças alimentadas dessa forma “crescem de modo diferente que as aliemntadas com leite artificial e têm marcadores metabólicos distintos, sobretudo no primeiro ano de vida”. Por esta razão, “o que faz sentido é usar curvas de crianças que foram alimentadas com leite materno”, defende o professor, tal como é preconizado no novo modelo da OMS.

“As crianças que são alimentadas com leite natural aumentam mais de peso nos primeiros 3/4 meses de vida e depois têm, quando confrontados com as curvas actuais, uma falsa «desaceleração», que pode ser interpretada como secundária a uma situação de hipogalactia materna (baixa produção de leite), levando a um início precoce da diversificação alimentar ou a uma desnecessária suplementação com leite industrial. As duas situações associam-se a um maior risco de obesidade”.

O artigo da autoria de António Guerra é peremptório “As novas curvas da OMS são da maior relevância para uma avaliação mais correcta do crescimento e constituem um precioso instrumento para a monitorização do estado de saúde e de nutrição do lactente e da criança com implicações a longo prazo no estado de saúde das populações”. O professor de Pediatria da FMUP espera, assim, “poder ver brevemente em Portugal a adopção das novas curvas da OMS pela Direcção-Geral de Saúde”.