Oficina CEER
 22-09-2010
OS ABUTRES: UM LUGAR MUITO ESPECIAL NA NATUREZA

As grandes aves necrófagas, os abutres, ocupam um lugar muito especial na Natureza. Associadas muitas vezes à morte, representam porém a primeira barreira natural à disseminação de doenças, pois, a sua apetência para o consumo dos cadáveres impede que estes possam contaminar solos, cursos de água e ainda outros animais carnívoros que não apresentam as suas resistências quase únicas a agentes patogénicos tais como o Antraz. Vários factores têm conduzido ao declínio de aves necrófagas em Portugal. A falta de cadáveres, os envenenamentos e a diminuição do aproveitamento pecuário extensivo, a modernização agrícola e a perturbação das áreas de nidificação, são os principais responsáveis pelo afastar destes animais do Território Nacional.

Em Portugal podem ser avistadas 3 espécies de abutres: O grifo, o Britango e o Abutre-preto. O grifo é classificado como uma espécie quase ameaçada residente e embora as suas áreas de nidificação estejam concentradas principalmente no Vale do Douro e seus afluentes e no Troço do Tejo Internacional e seus afluentes, os seus números têm vindo a aumentar. O Britango, também conhecido como Abutre-do-Egipto, é o mais pequeno destes abutres. Com estatuto de conservação de “Em Perigo”, esta ave suis generis apresenta a mesma distribuição geográfica que o grifo mas, não partilha do mesmo optimismo em relação aos seus números. O abutre-preto é o mais raro destas três espécies e a única que até este ano não apresentava índices de nidificação no nosso país há já vários anos. Sem populações estáveis em Portugal esta ave pode ser avistada, por vezes, nas mesmas regiões que as outras espécies. O seu estado de conservação é considerado como “Criticamente em Perigo”.

No âmbito do trabalho que o Hospital Veterinário da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro tem vindo a desenvolver nos últimos anos, a recuperação de indivíduos destas espécies tem sido uma realidade. O objectivo final da recuperação de animais selvagens é a sua devolução à natureza enquanto indivíduos aptos à sua vivência no seu habitat natural. É chegado ao momento de entregar à natureza 6 das suas criaturas. O próximo dia 24 de Setembro marca o regresso de 4 grifos, de 1 britango e de um Abutre-preto à liberdade. O local escolhido é o Penedo Durão, no concelho de Freixo de Espada à Cinta, pelas 10h30.

Após um longo calvário de muitos meses estes animais apresentam índices físicos e psicossociais compatíveis com o regresso à Natureza. O britango, um jovem de apenas 3 anos de idade, voará pela primeira vez em liberdade depois de ter sido recolhido no Concelho de Miranda do Douro caquéctico e indefeso com apenas 2 meses de vida. A intervenção do Parque Natural do Douro Internacional permitiu uma rápida assistência ao animal. Os grifos sentirão novamente as correntes de ar quente nas suas asas enquanto galgam os céus do nordeste transmontano. Tendo sido vítimas da fome, de envenenamento ou de colisão com estruturas de abastecimento eléctrico, estes belos animais recuperaram de forma absolutamente notável e apresentam-se em plenas condições para regressar aos seus altos voos. Provenientes de diversas áreas do interior norte e centro do país, foi essencial a colaboração das equipas do SEPNA de Moimenta da Beira, Chaves e da Régua para a sua recuperação. O Abutre-preto deu entrada nas nossas instalações extenuado e extremamente desidratado, possivelmente por se ter dispersado do seu núcleo populacional. A rápida intervenção do Parque Natural de Montesinho conduziu este animal em tempo útil para a intervenção dos profissionais do Hospital Veterinário da UTAD. Após dois anos em recuperação vai finalmente tomar o seu lugar na Natureza.

Fonte: http://www.utad.pt